domingo, 11 de julho de 2010

Onde?



 Sempre julguei a felicidade com algo a ser conquistado futuramente, algo que dependia de um conjunto coisas dando certo ao mesmo tempo. A cada conquista sentia que ainda me faltava alguma coisa para concluir o meu projeto, conclusão essa que parecia nunca chegar. 

 Os objetos de desejo iam se alterando em uma freqüência que nem meu próprio pensamento era capaz de acompanhar, limitando com isso a minha satisfação completa. Com o passar do tempo o sentimento de impotência em relação a minha própria vida foi ganhando forma e me fazendo nutrir uma enorme frustração interna. 

 Não seria eu capaz de proporcionar a mim mesma a felicidade? Vou passar a vida esperando que alguém a encontra pra mim? E, além disso, me veio à cabeça a seguinte questão: O que seria a felicidade propriamente dita? Seria mesmo necessário todos aqueles objetos de desejo para conquistá-la? 

 Tem momentos que ser feliz me parece algo tão simples... como quando ando na rua e observo uma criança, as vezes se deliciando com um sorvete de chocolate, outras observando quantos passos consegue dar sem tocar as emendas da calçada... ela não parece precisar de mais nada para estar feliz. 

 A felicidade então não seria um estilo de vida a ser alcançado e sim pequenos momentos, únicos, que duram muitas vezes menos do que a nossa própria memória nos aparenta recordar. Momentos esses que passam despercebidos diante da rotina tão árdua que levamos em busca da tão sonhada felicidade!


'Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.'

(A Arte de Ser Feliz - Cecília Meireles)

Um comentário:

  1. Um dia li que a vida é uma sequência de agoras.
    Aquela frase dita daquela maneira foi bem impactante para mim. Realmente, o que tanto sonhamos no futuro será simplesmente outro agora. Entretanto, não sabemos sequer se estaremos vivos para contemplar outro agora. Não sabemos até que ponto nosso agora se estenderá. Portanto, viver o agora sonhando exclusivamente com outro agora é desperdiçar a única certeza da vida que temos: que é o exato instante que estamos vivendo, como esse que te escrevo.
    Sonhar é lindo e colore a vida. Mas a felicidade não é algo a ser alcançado, quem sabe, talvez, se por um acaso, em um outro agora.
    A felicidade é um estado de espírito a ser alcançado não com realizações de sonhos cada vez mais ambiciosos, mas sim com amadurecimento e sabedoria. A ironia é exatamente essa, a de que uma criança sabe muito mais sobre ser feliz do que nós, embora não tenha o amadurecimento e a sabedoria que pensamos ter.
    Ela tem a pureza. Portanto, penso que seja essa a grande e única chave para ser feliz: buscar em nós a criança que é feliz a cada instante com o que há de mais simples, e não faz de seus sonhos razões para deixá-la frustrada, simplesmente porque não assimila a sua felicidade a realização obrigatória dos sonhos.
    Os sonhos são territórios tão longes e tão belos, como as histórias dos livros e a criança consegue viver com aqueles sonhos sem se sentir obrigada a realizar todos. Muitos só existem no plano da imaginação e não têm a mínima pretensão de tomar vida. Ou melhor, são tão vivos para a criança como se fossem reais.
    Talvez seja porque a criança vive no mundo que inventa e colore e por isso não sinta a necessidade de transportar os tesouros desse mundo para o nosso mundo real.
    Afinal, o que seria o mundo real? Não é muito mais feliz a criança que pendura uns lençóis pela casa, e diz que está no seu castelo e deixa a tarde passar embalada por risadas e olhares fascinantes? Eu prefiro me meter no meio desses lençóis e gritar "olhe! o salão do baile está cheio de príncipes e princesas!" do que inventar mil coisas para me fazer crer que ainda não sou feliz.
    Eu amei o seu texto amiga! Amei também reler a crônica de Cecília Meireles. Sabe exatamente do que lembrei, não é ?
    Estou louca para te encontrar logo amiga! Mas como só tenho o momento de agora e a minha vida só existe porque respiro nesse instante, me sinto extremamente feliz por estar escrevendo para você!
    Nunca deixe de escrever!
    Você escreve com magia, de uma forma linda.

    Beijinhos.

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