Estava nas barcas, cumprindo a rotina que todos os dias me consome. Não que “consumir” deva ser entendido como algo negativo, longe disso, a minha rotina me consome a raiva, me faz esquecer a dor. Posso dizer que ela possui um incrível poder de cura, de libertação.
Durante o caminho eu pensava na vida, nos trabalhos e provas que se aproximavam, nas atividades que devia fazer no dia seguinte. Como sempre, a minha mente não me dava trégua. No entanto, resolvi parar. Não foi uma resolução consciente, na verdade, mal sei se cheguei a possuir o direito de escolha e o que me levou a tomá-la, só sei que parei.
Parei e comecei a sentir a forte brisa do mar tocando o meu rosto de forma tão confortante que mal conseguia me mover. Senti uma energia invadindo o meu corpo e por um instante fui capaz de entender o que chamavam de levitação.
Naquele momento eu me senti plenamente feliz.
Não era uma felicidade concreta, que eu pudesse explicar enumerando motivos, nada disso. Eu apenas estava em paz.
Era uma paz tão profunda que cheguei a sentir meus olhos se encherem de água e apesar da imobilidade do corpo, foi neste momento que resolvi escrever. Peguei papel e lápis, pois sabem que algum dia eu sentiria saudade da emoção causada por aquele momento. Quem sabe ao relatá-lo em um papel ele se tornaria eterno e eu poderia relembrá-lo em momentos tristes.
Talvez ao colocar minhas emoções em um papel eu pudesse vê-las de fora, com o olhar de um visitante, sem me deixar influenciar pelo fato delas me pertencerem, fazerem parte de mim. Quem sabe assim eu conseguisse compreende-las.
Em pensar que se fosse possível transmitir tudo que sinto para folhas a minha vida seria tão diferente... Ao sentir saudade de um momento vivido ou de uma sensação sentida me caberia apenas buscar meu caderno e nele procurar a parte que faz falta. Ao lê-la calmamente, acreditaria estar vivendo novamente o que já passou.
O motor do barco desligou.
A pressão do vento diminuiu.
Um homem tossiu próximo a mim.
Só após algum tempo pude compreender...
... Que pena, a minha viagem ao mundo dos sonhos acabou. Acho que eu nunca havia ido para tão longe em tão poucos segundos.
Texto escrito no dia 20/09/2011