quinta-feira, 15 de julho de 2010

Hoje: o ontem de amanhã




Estava hoje travando com uma amiga uma daquelas conversas que começam com um objetivo, mas acabam mudando completamente seu curso no decorrer do tempo. Falávamos sobre o tempo, sentimentos e sonhos, sonhos esses que não sabemos se vão ou não se tornar realidade. Falávamos sobre o passado, o presente e o tão esperado e temido futuro, futuro esse que me traz uma sensação de total impotência.

Na verdade, existem dois tempos verbais que me intrigam muito: o passado e o futuro.

Dedico grande parte do meu tempo recordando coisas que já vivi e não tenho a menor pretensão de reviver. Sei lá porque, mas têm momentos da minha vida que parecem ter se tornado ‘propagandas de tv’, eles se repetem desenfreadamente na minha memória de uma maneira inconsciente e incontrolável. É como um filme travado em determinada cena, se repetindo, se repetindo... Lembro-me que quando os vivi jamais poderia imaginar a importância que iriam adquirir na minha vida e o quanto ocupariam o meu pensamento.

Acredito que isso tudo esteja ligado à saudade.

E a saudade é outra que me intriga muito.

Já parei pra pensar e cheguei a conclusão que todas as duvidas que tive em relação aos sentimentos foram cessadas pela saudade. Se pedirem, hoje, para que eu defina saudade certamente vou dizer que é a maior certeza da ocorrência de um sentimento verdadeiro, sentimento esse que foi forte o bastante para deixar marcas.

Resumindo, para mim saudade é sinônimo de esclarecimento!

Ah, se tudo terminasse nessa bela frase impactante...

Mas esse é só o começo de um longo e sórdido processo manipulado por ela, a nossa temível adorável saudade. E não, ela não chega sozinha, ou você acha mesmo que uma senhora desse porte andaria por aí desacompanhada?  Tremenda inocência.

Juntos surgem milhares de outros ‘mini-sentimentos’ que a torna perigosa: culpa, remorso, raiva, indignação, alegria, alívio, euforia, desespero... ‘Por que não dei mais valor ao que tinha?’, ‘Por que fui tão egoísta?’, ‘Se eu pudesse voltar no tempo’, ‘Agora eu sei que ele realmente era o homem da minha vida’...

Mas... só um pequeno detalhe:  a saudade não é uma maquina do tempo!

Por mais que funcione como uma válvula de escape e aparente ser o sentimento mais confortante do mundo, por ser a única ligação latente com momentos vividos, nada fará com que a vida regresse.

Independentemente do que sinto em relação ao passado e da falta que ele me faz no presente, jamais conseguirei retomar algo que já foi. E é exatamente por isso que concordo com Chico Buarque quando ele diz ‘que a saudade é o pior castigo’, pois é como botar o dedo na ferida ainda aberta, lembrar de momentos que não existem mais.

É, o tempo não perdoa.

Cheguei a conclusão que tanto temia.

Dedico à maior parte do meu tempo minando coisas que já ocorreram e vivendo em prol de recordações e catarses que nunca me proporcionaram plenitude. O pouco tempo que me resta uso para sonhar e programar um futuro sem a menor garantia que ele realmente existirá, afinal, posso morrer a qualquer minuto.

E o presente?

Será que só agora me dou conta de que é desse presente que se criarão minhas futuras memórias do passado? E que é nesse presente que devo lutar para conquistar os meus tão sonhados planos do futuro?

Vejo-me completamente contraditória diante dessas constatações, como posso ir contra meu próprio pensamento? Realmente não sei.

Mas de uma coisa eu sei: eu não quero viver de saudade!

domingo, 11 de julho de 2010

Onde?



 Sempre julguei a felicidade com algo a ser conquistado futuramente, algo que dependia de um conjunto coisas dando certo ao mesmo tempo. A cada conquista sentia que ainda me faltava alguma coisa para concluir o meu projeto, conclusão essa que parecia nunca chegar. 

 Os objetos de desejo iam se alterando em uma freqüência que nem meu próprio pensamento era capaz de acompanhar, limitando com isso a minha satisfação completa. Com o passar do tempo o sentimento de impotência em relação a minha própria vida foi ganhando forma e me fazendo nutrir uma enorme frustração interna. 

 Não seria eu capaz de proporcionar a mim mesma a felicidade? Vou passar a vida esperando que alguém a encontra pra mim? E, além disso, me veio à cabeça a seguinte questão: O que seria a felicidade propriamente dita? Seria mesmo necessário todos aqueles objetos de desejo para conquistá-la? 

 Tem momentos que ser feliz me parece algo tão simples... como quando ando na rua e observo uma criança, as vezes se deliciando com um sorvete de chocolate, outras observando quantos passos consegue dar sem tocar as emendas da calçada... ela não parece precisar de mais nada para estar feliz. 

 A felicidade então não seria um estilo de vida a ser alcançado e sim pequenos momentos, únicos, que duram muitas vezes menos do que a nossa própria memória nos aparenta recordar. Momentos esses que passam despercebidos diante da rotina tão árdua que levamos em busca da tão sonhada felicidade!


'Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.'

(A Arte de Ser Feliz - Cecília Meireles)