terça-feira, 5 de julho de 2011

Entre um ponto e outro, uma Rosa...

  O ônibus não estava tão cheio como o de costume. Era por volta das dez da noite e haviam lugares sufiencientes para que não fosse necessário o compartilhar de acentos.
  Lá estava ela. Solitária em seus pensamentos mais íntimos.
Cantarolava músicas mentalmente, quem sabe, ou simplesmente apreciava o nada. Parecia possuir um cansaço típico de quem enfrentou um longo dia de trabalho desgastante e aquele momento de recolhimento era no mínimo necessário para a sua sobrevivência física.
  O banco a aconchegava de forma a envolve-la como um feto, e mesmo com o visível desconforto proporcionado pela posição, era possível dizer que aquela mulher nunca esteve tão bem acomodada em toda a vida.
  Então, em meio a calmaria de um dia por terminar, observa-se a entrada de um homem. Seu jeito afoito de vasculhar os pertences a procura da carteira e a forma com que atravessou o corredor do transporte atraiu a atenção dos poucos passageiros que ali estavam. Ele caminhava agitado, como se não procurasse apenas um lugar para se acomodar, procurava algo além, procurava si próprio.
  Foi então que se deparou com Rosa, em estado de descanso profundo, recostada na janela.
Ao se dar conta da presença de um rosto conhecido em meio aquele ambiente aparentemente impessoal, o semblante do homem de alterou de forma exorbitante.
Parecia ter visto um poço d'agua em meio ao deserto.
A última das esperanças dada a um descrente.
  Rapidamente o homem seguiu na direção da moça, tratou de sentar no acento que havia ao seu lado e se fazer presente da forma menos discreta possível, para que ela percebesse a coincidência ocorrida. Incomodada com movimentação que se iniciara ao seu lado, Rosa tratou de se desfazer da posição confortante que se encontrava a procura do motivo de tamanha inquietude. Foi então que percebeu a presença de Jorge e instintivamente transmitiu um sorriso indecifrável.
  Sem ao menos ter a chance de transmitir seu espanto com encontro inesperado, as palavras pré sinalizadas de Rosa foram atropeladas por um turbilhão de textos ditos por Jorge de forma descompassada e acelerada, colocando-a no lugar de mera espectadora de um monólogo.
O rapaz falou de seu trabalho, seus problemas pessoais e de coisas que aconteciam em seu cotidiano - na maioria do tempo reclamou de tudo e todos que estavam a sua volta - não permitindo a Rosa sequer uma frase. Ela até tentou se pronunciar uma ou duas vezes, talvez para expor uma palavra de consolo aquele homem aparentemente tão infeliz ou simplesmente para falar algo de sua própria vida. Mas as falas que ela diria nunca serão descobertas, pois antes mesmo de serem iniciadas foram arduamente interrompidas por gestos bruscas de Jorge e pelo aumento de seu tom de voz, que parecia alerta-la a não cometer mais a imprudência de interrompe-lo.
  A viagem durou cerca de quarenta minutos e a mulher permaneceu intacta, imóvel diante do homem que nela metralhava informações que de nada a interessavam.
  Ao chegar em seu ponto, o homem se levantou com ar satisfeito, olhou para Rosa e disse: "- Foi ótimo encontrá-la, espero revê-la mais vezes para termos essas conversas revigorantes."  Rosa olhou em sua direção, iniciou o movimento de abertura da boca para responder a despedida mas ao se dar conta o homem já havia virado as costas, não dando a ela nem a chance de dizer "- Adeus".

  Naquela noite Jorge só precisava de alguém.
  Naquela noite ele estava sozinho como a tantos anos.
  Naquela noite Rosa entendeu o porque da solidão ter se estabelecido na vida de um homem de tão boa aparência e bem sucedido.

  Jorge havia perdido grandes chance de felicidade ao longo da vida e agora, aos cinquenta anos, não se julgava mais digno de encontrá-la. As pessoas apareciam, ele as via, as vivia e ia embora, sem ao menos dá-las a chance de dizer tchau.
 
  Naquela noite Rosa havia sido a sua salvação, e amanhã, quem será?