Bem me dizia Luana, em um daqueles raros chás da tarde para os quais eu a convidada a invadir minha mente... Bem me dizia Luana, que por mais que me alertasse, eu mantinha o péssimo hábito de cultivar a auto enganação. Bem me dizia Luana, que mesmo que eu tentasse arduamente me convencer de que o que me ofereciam era o suficiente, o suficiente para mim jamais havia sido oferecido. Também me dizia ela que mera enganação eu cometia ao tentar me igualar aos demais e aceitar defeitos que para mim, definitivamente, eram inaceitáveis. Bem me dizia Luana que a felicidade jamais me seria concedida enquanto eu não assumisse para mim mesma que sonhava alto, queria muito. Muito de mim, muito dos outros. Luana cansou de me alertar da mania que tinha de me contentar com o que me era inferior, cansou de me esfregar na face a síndrome da Madre Tereza.
Ela realmente tentou.
Ela realmente tentou.
Luana era um dos meus poucos momentos de lucidez e ao final de cada chá da tarde sentia que junto dela iam os meus sonhos, a minha aceitação, o meu eu.
Eram em encontros como aqueles, que ocorriam com uma frequência não muito definida, que conseguia entrar em contato comigo mesma. Eram em momentos como aqueles que eu me via diante de mim, sem mascaras, sem aspas.
E ao se aproximar a despedida, meu coração doia, meu olhos lacrimejavam.
Era o momento de dar adeus a Luana e todas as suas verdades que me pareciam tão minhas. Era o momento de dar adeus a mim.
Luana é a mulher que sou e não consigo ver.