sábado, 21 de agosto de 2010

A cidade do sol.


  Desde que terminei de ler este livro penso em escrever sobre ele, porém nunca conseguia me definir sobre qual das milhares de sensações incríveis que senti durante essa leitura gostaria de falar. Nada adiantou, aqui estou eu sem a menor noção do que irei relatar nesse texto.

  É incrível a capacidade que certos autores tem de me apresentar a mim mesma. Sim, é exatamente isso que quis dizer, eles parecem conhecer muito mais sobre as minhas limitações e dúvidas do que eu. Sabem exatamente como me alimentar, instigar a minha curiosidade e exigir de mim muito mais do que meus pensamentos banais sobre questões aparentemente cotidianas, porém fantásticas.

  Sempre tive certa atração sobre assuntos envolvendo países e culturas variadas, gosto de imaginar que existem realidades muito diferentes da minha e que muitas vezes não estão tão distantes. Mas nunca nessa proporção, nunca com essa intensidade que me invadiu o peito e me afogou os olhos.

  Recordo-me vagamente do ano de 1996, eu tinha cinco anos e estudava em uma escola bem alegre. Tinha amiguinhos, meninas e meninos, e não sofria nenhum tipo de repressão por conviver com todos igualmente. Lembro que muitas vezes minha avó me buscava no final da tarde, ela morava bem próxima a escola. Eu, agitada como sempre, ia pulando ao longo do caminho e muitas vezes soltava sua mão. Era repreendida, mas logo em seguida presenteada com o seu sorriso acalentador. Seguíamos caminho, parávamos em uma padaria que hoje esta totalmente diferente. Comprávamos mil balas e como sempre dois pães de sal bem morenos, preferência do meu avô.

  Levava uma vida tranquila, sem grandes feitos, sem grandes limitações. Sentia-me livre.

  Desde essa época meus pais já eram separados. Para mim isso não fazia muita diferença, ou se fazia não me recordo no momento. Acho que mesmo nova já era adepta da teoria ‘Não sinto falta de pais casados porque não me lembro como seria tê-los’. Nunca sofri nenhum tipo de descriminação devido a isso, nem me passava pela cabeça que em algum lugar do mundo o estado civil dos pais poderia influenciar na imagem dos filhos.

  HARAMI, esse é o nome dado a uma criança do Afeganistão cuja origem descende de um relacionamento não convencional, ou seja, a mãe não é a real esposa do pai. Não é o meu caso, mais isso me tocou profundamente. Como uma sociedade é capaz de expor uma criança a ponto de estereotipá-la? De fazê-la passar por diversas humilhações diante de uma sociedade hipócrita? Foi o que aconteceu com Mariam e com diversas outras crianças que vivem uma realidade que para mim era bem irreal até então. 

  Foi nesse momento que comecei a refletir sobre o mundo, sobre o quão limitado é o nosso campo de visão. Sobre o quão pouco sei e o quanto estou me isentando de inteligência ao achar que a vida que levo é a única possível e normal. Cega. É isso que sou, cega.

  Tantas aulas de Geografia em vão. Passo dias reclamando de fatos banais sem ao menos saber o que acontece no outro lado do mundo, no outro lado do Meu Mundo. Acho normal vestir um vestido preto, passar um batom nos lábios e sair em busca de diversão para sábado à noite. Normal? Normal onde? Normal para quem?

  Existem lugares onde as mulheres mal podem sair de suas casas. São entregues aos maridos ainda jovens, como mercadorias a serem usadas ao longo da vida. Mulheres essas que não podem mostrar o próprio rosto em publico e que se recolhem em seus aposentos ao chegar uma visita em casa.

  Esse livro me tocou profundamente, me fez ver que essa mulher é exatamente como eu, exatamente como nós.

  Coloquei-me na situação de Laila e Mariam, vivendo em uma sociedade onde a agressão física é garantida por lei. Logo eu, tão sonhadora e idealista. Logo eu que vivo em um país onde uma simples palmada se tornou proibida por lei. Não, eu jamais aguentaria. E por que elas aguentam então? Porque é normal, pra elas anormalidade é a vida que mulheres como eu possuem.

  Em 1996, enquanto eu vivia a minha pacata infância, entrava em vigor no Afeganistão um conjunto de leis que privava a população do pouco que ainda restava. Guerras haviam tomado conta da região desde 79 e Cabul tinha se tornado uma praça de violência.

“Nosso watan chama-se agora Emirado Islâmico do Afeganistão. Eis as leis que começam a vigorar e às quais todos devem obedecer.
Todos os cidadãos devem rezar cinco vezes ao dia. Quem for apanhado fazendo outra coisa nas horas de oração será espancado.
Todos os homens deverão deixar crescer a barba. O comprimento correto é pelo menos um punho fechado abaixo do queixo. Quem não cumprir essa determinação será espancado.
Todos os meninos devem usar turbante. Os estudantes da primeira à sexta série usarão turbantes negros, os alunos das séries superiores usarão turbantes brancos. Todos deverão usar trajes islâmicos. O colarinho das camisas deve ser abotoado.
É proibido cantar.
É proibido dançar.
É proibido jogar cartas, jogar xadrez, fazer apostas e soltar pipas.
É proibido escrever livros, ver filmes e pintar quadros.
Quem possuir periquitos será espancado, e os pássaros, mortos.
Quem roubar terá a mão direita cortada na altura do pulso. Quem voltar a roubar terá um pé decepado.
Quem não é muçulmano não pode realizar seu culto em lugar onde possa ser visto por muçulmanos. Quem fizer isso será espancado e detido. Quem for apanhado tentando converter um muçulmano à sua fé será executado.
Atenção mulheres:
Vocês deverão permanecer em casa. Não é adequado uma mulher circular pelas ruas sem estar indo a um local determinado. Quem sair de casa deverá se fazer acompanhar de um mahran, um parente de sexo masculino. A mulher que for apanhada sozinha na rua será espancada e mandada de volta para casa.
Vocês não deverão mostrar o rosto em circunstância alguma. Sempre que saírem à rua, deverão usar a burqa. A mulher que não fizer isso será severamente espancada.
Estão proibidos os cosmésticos.
Estão proibidas as jóias.
Vocês não deverão usar roupas atraentes.
Só deverão falar quando alguém lhes dirigir a palavra.
Não deverão olhar um homem nos olhos.
Não deverão rir em público. A mulher que fizer isso será espancada.
Não deverão pintar as unhas. A mulher que fizer isso perderá um dedo.
As meninas estão proibidas de freqüentar a escola. Todas as escolas femininas serão imediatamente fechadas.
As mulheres estão proibidas de trabalhar.
A mulher que for culpada de adultério será apedrejada até a morte.
Ouçam.
Ouçam bem.
Obedeçam.
Allah-u-akbar.”

  Essas leis não só me indignaram como me assustaram de forma indescritível. Acredito que conseguiram reunir em um único documento tudo que considero contra os direitos humanos e livre arbítrio. Mas quem sou eu para julgar uma cultura que jamais conheci, e com a qual eu não pertenço?

  Gostaria muito de saber qual é a linha que separa o cultural do inaceitável, se é que existe essa distinção.

  A Cidade do Sol me fez perceber o quanto sou pequena diante da diversidade existente no mundo e o quanto gostaria de poder conhece-lo.

4 comentários:

  1. lindo o texto! existem ainda, varias outras diferenças pelo mundo, que ainda nem conhecemos! como sempre vc acertou em cheio... bjo ;*

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  2. Lindo mesmo. E lindo também o livro. Já li e me emocionei, assim como você. Aliás, a literatura que conta os horrores afegãos tem batido um bolão. Apesar da globalização, a gente, até então, felizes ocidentais, vivia alheio a essa triste realidade marcada pelo Talibã. Como elas conseguem? Não sei. Mas vou usar um antigo ditado popular cristão (apesar de ser budista): "Deus dá o frio conforme o cobertor". Acho que é um pouco por aí. No mais, como digo sempre para o Leandro, a gente deve agradecer todo dia: por ter nascido num país livre e, principalmente, por não termos mentes obtusas. Isso faz toda diferença.

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  3. É lindo e assustador o processo de saírmos de nossas cavernas existenciais, deixármos de ignorar o que não interfere em nosso cotidiano diretamente e passar a viver o mundo que estamos inseridos. Viver o mundo em sua amplitude. Observar as questões sociais em todos os seus detalhes e procurar conhecer bastante antes de julgar. Entretanto, penso que existam julgamentos inerentes a nós e que não há mal nenhum nisso, como o nosso julgamento de que é errado espancar as pessoas. Que venham todos os antropólogos que pensam diferente atirar pedras em nós! Que digam que somos ignorantes! Não me importo.
    Sentimos que somos privilegiadas por viver em uma sociedade que não estabelece tais proibições e sanções. Entretanto, passo a refletir: "até que ponto somos privilegiadas?" "até onde vai a nossa liberdade?"
    Saímos na rua sem saber se voltaremos vivas.
    Podemos levar um tiro simplesmente porque uma pessoa resolveu atirar em nós. Podemos levar um tiro porque alguém se achou no direito de roubar a nossa bolsa e acabar com a nossa existência. Estudamos e trabalhamos. Compramos uma bolsa bonita com todo o nosso direito e vaidade. E somos mortas no meio da rua pelo nosso direito de ter aquela bolsa. Pelo direito que não é acessível a todos na prática e gera raiva, inveja, revolta, tiros que dizemos não ter motivo algum, mas que tem milhares para quem atira.
    Até que ponto somos livres?
    Evitamos andar sozinhas em ruas escuras ou mesmo claras, mas desertas. Sim, nós as mulheres ocidentais e independentes evitamos andar sozinhas também...simplesmente porque diariamente estamos expostas ao risco de alguém decidir nos estuprar.
    Nós frequentamos as escolas. E desde cedo a idéia de que precisamos ser as melhores é incutida em nós. Se não formos as melhores não conseguiremos o nosso espaço na sociedade. Se não formos as melhores não poderemos gozar dos benefícios que o capitalismo oferece. Desde cedo somos moldadas para pensar de uma certa forma. Desde pequena vemos que há um leque interessantíssimo de profissões que são descartadas por não darem dinheiro. Desde pequenas somos forçadas a pensar de um jeito sem ter a escolha dada a nós.
    Até que ponto somos livres?
    Até que ponto somos livres?
    Até que ponto somos livres?

    Nós também somos escravas.

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  4. Noossa amiga, adoorei o texto!! Muito bom refletir sobre certos assuntos, vou voltar aqui sempre!

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